voyeur

domingo, 16 de março de 2014

Boneca de menina

Chegava da escola e ia logo perguntando “cadê a Flora, mãe?”. Minha neta ainda presa num corpo minúsculo de plástico e borracha, em forma de bebê. – “Você já deu um beijo nela hoje? Trocou a fralda? Mãe, a Flora quer ir com você pro seu trabalho. Ela quer passear! Vamos papar, Flora. Você tem que comer tudo pra crescer!”.
Machadianamente penso que a menina é mãe da mulher.
Linda, de cá pra lá, boneca nos braços. Conversa maternalmente “coisas”, chama-lhe atenção, ensina. Revira tudo pra fazer roupinhas, enrola a boneca em mil panos - “Mãe, a gente precisa comprar mais fralda pra Flora, a dela acabou.”- Nem tenho tempo de lembrar que boneca não suja fralda, lá eu vou deixar minha netinha suja?! - “mãe, a Flora, no dia das crianças, quer um maiô!” - E eu, vó absoluta antes dos 40, papariquei minha neta de mentirinha, revivi infâncias com ternura, pra ouvir menina dizer, de repente, “eu te amo, filha”. ----- Eu também! As duas!!
Um dia encontro a Flora só, no sofá. Acreditando que 'alguém' me ouvia: “ô minha fofinha, tá sozinha? Vem aqui com a vovó!” – beijo, aperto... ela nem apareceu, nem estava perto.
Ri de mim e pra mim e fui entrando, o quarto dela semi cerrado. Espiei. Empunhava arma mortífera: um batom. Meu cachecol enrolado no corpo, feito vestido, e os sapatos, enormes, nos pés...eram meus. Ela queria outros panos.
Esqueceu a filha Flora, que voltou a ser boneca. Esqueceu da mentirinha, das roupinhas, do maternal amor.
Flora permaneceu linda em sua eterna e plastificada meninice. A 'boneca' nova se via, agora, no espelho.
Minha Bia crescia e esquecia Flora filha. Esquecia que fora filha. Era agora menina mulher, de batom e sutiã. Quer um namorado, tem tédio e TPM e fica horas no quarto ... sem dar a graça de seu ar.
Terminou a mentirinha e nem me perguntou se eu queria parar de brincar.

sábado, 9 de novembro de 2013

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

sábado, 14 de setembro de 2013

Leda e O cisne

tonitruante bater de asas
espreita 
Leda lendo
ao largo do lago.
sinuoso cisne
in - sinua - se
in - si
nua - se
em si satisfeito
de si,
de Leda,
plena,
lânguida,
leda

domingo, 21 de julho de 2013

Femina

me pinto pra guerra
sangue suado
pulsante colado
veia-corpo
corpo a corpo
mano a mano
boca a
olhos
pele
gosto.
na guerra
me dispo

quinta-feira, 4 de julho de 2013

alma de poeta

a poesia valsa
e salva
            a alma
da lama
            na lama 
a alma
            valsa
salva a poesia 

domingo, 5 de maio de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

hora muda

da mudez nasce
o que morre,
que mata
Silêncio eloqüente 
no pensamento 
cala
a mudez fala
com voz ríspida

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

insone



alta madrugada.
cessam sons.
sibilam, distantes, grilos, talvez
só, o nada fala
tudo cala
tudo dorme...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Silentes

Nasceu tarde, em pequeno banheiro num quarto barato de hotel.
Sem gemido.
Segurava suada a pia do banheiro, acocorada,
no aguaceiro que desentranhava,
muda,
Escorria a cria.
Cortou cordão, enrolou em cueiro, deu de mamar.
Dormiram.
Amanhecido, pagou pernoite e saiu da cidade...
longe das sibilantes línguas dos olhos alheios.
Isso sabia do nascimento.
Cresceu no silêncio da mãe, em meio imagens do não dito
e aprendeu dizer o bastável,
pra só ser.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

viverso

o verso que não sai
no meu dentro
ondula
enjoa
torna-se eu
toma-me seu
desmede-se
despede-se
fica.
não sai,
não nasce,
e é.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

poeta





com os dedos
                                            o arrepio
                                            da língua molhada
                                            nos lábios
arranco
                                            os dentes
                                            mordendo
o divino
                                            das coxas
                                            apertando
de mim.

espelho

perder-se de si
é possível
perder-se de si

Dói

as nesgas de esperanças
despedaçam depois,
despedaçam em nós
na garganta
estômago
olhos.
depois espedaçam-me
nós.

segunda-feira, 26 de março de 2012

barulhinho bom


chuva chiando
fora
cócegas dentro
vontade de rir
de mim

o rir
em mim
arrepia
de rir
de mim

chiado cosquento
de chuva
molha
de alegria

Tempestas


noite solitária luz tremeluzente velas carros rumorosos águas cão incansável
late tonitruante céu aclara meia escuridão lume fraco escurece meia solidão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012







não sei nomear
pássaro
não conheço gorjear.
da minha janela
na madrugada
se assobia o sabiá
bentevia o bem-te-vi
anú, corrupia, jacú,
galinha d´água,
alma-de-gato,
joão-de-barro,
na janela
da minha madrugada
não é gorjeio...
só canto
de passarinho.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012


o que há entre a
flor
e a
pólis
é o mistério
que convida
é o todo
que me chama
no escuro
que me olha
é
o que não sei
há entre a
flor
e a
pólis.

formiga ao vento


o dia todo
o todo dia
andar arrastado
lentamente mudar
passos.
recuar sem querer
querer sem querer
avançar
pouco
cansar, forçar
a força, à força
o todo do dia
seguir
o dia todo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

manhecendo


Nem réstia de luz
pros olhos acostumados à muda escuridão da madrugada.
Silêncio roto:
longínquo som de ônibus nos longes da rua...
É nada disso a manhã.
Súbito trinado rasga o escuro dos meus ouvidos,
diviso um claro no assobio do sabiá!
- A manhã principia nascer é no bico do passarinho.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

aguada


nada de n

ovo no vaz

io dos sons

sutis dos si

bilantes ess

es e as oblí

c´oas chuvas

em ventos u

ivos gemidos

úmido pau

listanar go

te

jan

te

domingo, 28 de agosto de 2011

Primavera


Amores de lírios,
delírios de flores,
florescem rubores,
aquecem sabores...
de rumores lírios,
de flores,
deflores!
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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Ampulhetas



15''

no barulhento silêncio das horas vazias

surpreendo o Tempo desprevenido,

a descansar da eterna idade.

1'

tenho pensado no tempo

passando

tenho perdido tempo

pensando

fico a mercê do tempo

perdendo


tudo tão rápido, tão lento.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O vazio da pasta de dentes





Escorregou as costas frias pela parede de ladrilhos brancos cinzentos do banheiro até o chão. Perdidos olhos no muito vazio, fixavam-se no nenhum lugar.

trabalho vazio

casa vazia

coração vazio

O tubo de pasta de dentes vazio detonara seu perdimento.

Quando ainda quase no fim, havia renovado, na semana última, os votos da insípida vida a dois nada conjugada.

Todos esses pra trás dias, o tubo magro, retorcido já, dava um tico espesso da substância única que comungava com o marido. Hóstia pastosa, espremida, ungia, como uma nesga de esperança. Instava que tudo ia bem. Resíduo das coisas, lembranças, de uma quase alegria difusa que povoava a memória gasta do apartamento.

Resistira restando a gosma branca da pasta que ele retirava com força, um pouco antes dela, que fingia dormir pra não se despedir, na cama, espaço um dia de rito, agora de sacrifício.

Hoje, tubo findo, procurara em vão um tubo outro de pasta de dentes nos mofados armários e via, afinal, que as sobras eram nada.

O conforto do cômodo incomodava seu corpo com o peso amassado do tubo.

Pegou a bolsa, as chaves do carro e ia saindo, depressa, portas abertas, lembrou-se de deixar-lhe um bilhete:

“Desculpe, a pasta de dentes ficou vazia.”